Sem limites, mas nem tanto...

29-07-2024

É fantástica, motivadora e carregada de boa energia a ideia de não haver limites para o que podemos alcançar. Até aqui, creio que não há discórdia.

Que todos queremos beber da mesma fonte e ser tocados por meia dúzia de minutos de coragem insana que nos reviram a vida e nos fazem maiores e melhores, é um voto a favor disto, está ganha a ideia, em maioria absoluta.

Ser sem limites é incrível, é o pontífice máximo da rebeldia canalizado para a realização pessoal, é praticamente o grito de Ipiranga ao agarrar uma oportunidade.

É divino e por cada limite ultrapassado a caminho da auto superação, é mais do que legítimo um cálice de vinho e uma hóstia, que é como quem diz nos dias de hoje, uma flute de Veuve Clicquot e uma sushizada . Serviços mínimos de festejo.

O que não é assim tão incrível, é quando faltam os ditos limites, em relação aos demais.

Se é lindo superarmos os nossos limites pessoais, é igualmente bem bonito e de qualidade, saber respeitar os limites alheios, digo eu e uma boa parte da humanidade que já teve dissabores a ter de impô-los.

É no mínimo estranho e lamentável perceber que a esta altura da vida adulta, ainda andamos (ou pelo menos uma boa parte de nós anda) a ter de estabelecer barreiras para defender a nossa privacidade, a nossa história e a nossa intimidade, da curiosidade alheia e desenfreada de algumas pessoas.

Isto de estabelecer barreiras tem muito que se lhe diga, e, na verdade, entra aqui uma série de conceitos a ser considerados, que mais fácil parece constituir um novo governo do que propriamente estabelecer um limite, sem que as virgens ofendidas e curiosas se sintam melindradas por não satisfazermos a sua inconveniente coscuvilhice.

No mínimo castiço. A pessoa é invadida no seu íntimo, coloca o despropositado no seu lugar em defesa do seu bem-estar e ao fim ainda leva com sopa de trombas.

Muito bem, que a comam.

No meu caso concreto, deixo já declarado que a comam, e de preferência que se engasguem.

Não há uma única vertente que este comportamento sem noção abrace, que seja minimamente aceitável, se formos a analisar a questão de forma crua e dura.

A primeira e gritante manifestação de alguém que ultrapassa um limite é evidentemente a falta de educação. Certamente aquilo é gente que andou a beber chá de garfo.

Não é preciso ler um manual da Paula Bobone, nem seguir a Cíntia Chagas no Instagram para ter presente que quando não te convidam, por exemplo, para algo ou alguma coisa, não vais.

Se te convidam por último ou em cima da hora, declinas educadamente e não vais, faz parte de viver em sociedade – para sempre e desde sempre "antes desejada do que aborrecida ou tolerada".

Se não comentam contigo determinado assunto, não perguntas. Não tens nada a ver com isso. Arranja uma vida, dedica-te a algo, instrui- te, cria uma linha erótica de entretenimento, o que quiseres, mas ninguém nem nada te dá o direito de perguntar sobre a vida alheia só porque a tua se tornou uma pasmaceira e precisas de alimentar assunto, mas não sabes como nem com o quê.

Se estão a falar de determinado assunto e te pedem opinião, manifestas. Caso não te peçam, calas-te sob o prejuízo de estares a ser intrometido e não opinativo.

Aproveitando que somos moças modernas e gostamos destas coisas de redes, segue-se mais uma dica de etiqueta totalmente gratuita! Se és amigo de Instagram e/ou de Facebook de alguém, aproveita os posts, opina nos comentários, mas tem a elegância de não opinar além do óbvio que é exposto, não há qualquer necessidade de nos sentirmos especialmente à vontade por aí, né?...somos tão especiais como os outros 1000 que ali estão.

Se alguém está a falar, por favor não interrompas – é regra básica de educação, daquelas aprendidas por volta dos 5 anos, em geral acompanhada de "quando um burro fala o outro baixa as orelhas". Sejamos uma manada organizada, sff.

E no meio destas tantas outras dicas de educação e etiqueta, como por exemplo não corrigir ou repreender os filhos alheios, não opinar sobre condutas de educação dos mesmos de forma gratuita, comentar o aspeto físico de alguém ou as suas condições de vida e aí por em diante..

Questões, ditas básicas, mas que infelizmente parecem bem mais complexas de serem incutidas e aplicadas do o q era expectável.

Parece que virou tendência a má educação camuflada na forma de "sou directa, frontal, confiante, destemida e atrevidamente rebelde...". Não meu amor, não és. Se te revês no supra mencionado, carregada de razão, és provavelmente só mal educada e quiçá parva. Mas isto já são assuntos para outros carnavais...

Voltamos aos limites (ou falta deles).

Seguidamente à explosão de etiqueta e assassinato das boas maneiras a sangue frio, vem aquilo que pessoalmente mais me incomoda ao ultrapassar a linha que separa o aceitável do não aceitável, que é nada mais nada menos do que a inconveniência da pergunta e do assunto escolhido.

Categorizo vários níveis de inconveniência na ultrapassagem de um limite.

Temos desde a Categoria Básica, na qual se tenta ao de leve e de uma forma discreta, próxima e subentendida , saber de algo que não diz respeito a ninguém a não ser ao próprio. É quase uma dança clássica entre a manipulação e o cuidado exagerado e desproporcional, pela pessoa visada. È uma coscuvilhice disfarçada de preocupação. Pronto. É o nível totó, chamemos lhe assim.

E temos a Categoria de Inconveniência Grosseira, caracterizada por uma figura que regra geral em público decide abordar um assunto que só a ti diz respeito ou fazer uma pergunta quase a título de sondagem municipal acerca de uma questão íntima. Por muito chocante que até possa parecer, se perderem 10 minutos do vosso tempo, em algum momento da nossa vida, todos nós já nos deparamos com alguém que certamente estava a precisar de "obras no quinto andar" e do nada decide fazer uma exposição bruta da nossa vida a tentar saber de algo ao qual não és obrigado/a a responder e muito menos a abordar com aquela pessoa e com os mais 15 amigos que ali estão e que te são tão próximos como os primos da França...

(Pausa dramática, por favor).

O que fazer?

A graça desta questão é categorizada e estratificada pela mesma métrica da graça do abuso.

Hora de impor limites, pois claro está.

Se partirmos do princípio que és uma pessoa resolvida, sem qualquer necessidade de ser amigo(a) de tudo que é cão e gato (e a qualquer custo) e que a tua privacidade, moralidade e bem-estar estão acima de qualquer conveniência que o curioso possa ter além do respeito por ti, acredito que a reação ao ultrapassar de um limite teu, deve ser directamente proporcional ao impacto do mesmo em ti. É legítimo

(Ver gráfico de proporcionalidade directa no manual de 7o ano escolar de matemática, quando x cresce, y cresce na mesma proporção formando uma recta diagonal ao gráfico com início do ponto comum dos eixos, para que dívidas não hajam).

Resumindo, se estamos a falar da categoria base do passar do limite, a categoria tótó, um simples:"Desculpa, mas é um assunto pessoal", "Lamento, mas não me sinto confortável em partilhar isso" , "Não há mais a explicar além do que é visível" , "Estou ótima(o) é o q importa saber, certo?" são suficientes para rematar a questão.

Por outro lado, se estivermos a falar na Categoria de Inconveniência Premium, tudo é um bocado mais áspero (todavia mais necessário).

Convém manter presente na nossa vida que, cada vez que dizemos que sim a algo que queremos dizer não, ou cada vez que nos explicamos contra nossa vontade, é atirado um tijolo para a construção de um muro que nos separa do nosso bem-estar e do nosso mais autêntico eu, pelo que convém, puxando e hasteando a bandeira da elegância (porque ninguém detona um inconveniente sendo grosso, é tapar um buraco a abrir outro) deixar claro que isso é um não assunto com todas as letras.

Se não houve qualquer constrangimento em que fosse feita a pergunta/ intervenção, é teu por direito o reclamar exatamente do mesmo à vontade em dar resposta. Simples. Não é fácil, muitas vezes porque regra geral há sempre mais noção a viver dentro de quem é inquirido do que do inquisidor, mas é simples.

Vamos por favor normalizar, no caso extremo, a resposta curta e simples. "Não." e manter contacto visual como quem fuzila alguém com os olhos... garantindo assim um afastamento para os próximos 20 anos?

Vamos normalizar, mediante o abuso, o olhar de cima para baixo pós pergunta desnecessária, e sorrir com o canto da boca deixando a pessoa num misto de nada e coisa nenhuma? Vamos? A ver se a humanidade ganha mais consciência e sensibilidade e se torna menos bruta e mais respeitadora...

É tal e qual como termos de chegar ao ponto de pedir dinheiro que emprestamos porque alguém se "esqueceu" de nos pagar, ou então termos de andar atrás daquilo que é nosso porque não há o cuidado de o entregarem do mesmo modo que o foram buscar.

É maioritariamente mais constrangedor para quem reage do que para quem age, era desnecessário, mas infelizmente é preciso, já que os manuais da Paula Bobone pelos vistos eram caros demais para ser adquiridos e lidos. É educar.

Reitero que é espetacular ser sem limites. É necessário até, no que toca a superação.

|Com|tudo, ao invés de espiritualizarmos o abuso e condescendermos a alma mediante a falta de noção que têm para connosco de vez em quando, proponho que pelo menos um se posicione, para que dois saibam o seu lugar.

Provavelmente não se muda o mundo assim, mas que dava uma ajuda para o fazer um pouco mais agradável, disso ninguém me convence do contrário.

© 2024 |Com|tudo. Blog by Marta Carneiro. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Webnode Cookies
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora